Scars

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

  Eu estava morrendo.
Eu estou morrendo
Podia sentir meu estômago se revirar dentro de mim, apertando cada vez mais, encolhendo-se dolorosamente. Meu coração batia de forma tão dolorosa que eu queria arrancá-lo do peito com minhas próprias mãos, era tão difícil respirar, tão difícil abrir os olhos e me mexer. Era como estar naquelas malditas paralisias do sono, queria tanto em mover, mas não havia força.
Estava tão fraca... Está tudo girando tão rápido e, a cada volta, um ponto preto cega minha visão. Queria vomitar a água que tenho consumido por dias, queria sentir mais leve, mas não havia como.
Estou morrendo,
Morrendo...
Morren..
Eu só precisava esticar o braço, apertar duas ou três teclas no celular e sussurrar um “Me ajude, estou morrendo, estou morrendo, me ajude” mas minha alma já havia se desprendido e meu corpo, não havia como erguer um dedo, ele continuava encostado na poça de sangue e no chão frio, e eu podia sentir que todo o esforço que fiz foi para mover dedos fantasmas.
Morre...
Eu podia gritar por ajuda, mas não havia fôlego para isso, não havia como suspirar, não havia como soltar a respiração e puxá-la de volta. E não havia ninguém perto, não havia ninguém para me ouvir e me socorrer, mesmo que eu soltasse um simples arfar.
Morr...
Estava doendo tanto, cada osso meu, dos minúsculos aos maiores, se contorciam. Minha pele pareci tão fina que até mesmo o ar a cortava, e eu estava com tanto frio que cada tremor involuntário só piorava. Queria tanto me arrastar e puxar meu edredom quente, rosa e com cheiro de infância, me cobrir inteira até me esquentar... Mas não conseguia me mover, mal conseguia tremer mais. Estava perdendo os sentidos, perdendo a esperança. Perdendo a vida.
Mor...
Mal conseguia me concentrar, mas uma imagem permanecia em minha mente, um espelho pequeno apoiado na cama, e nele refletia uma garota quebrada, muito, muito, muito sangue pelo chão, pelo corpo, pelo pano. Um sutiã rosa, uma calcinha branca velha e de coração, ossos desajeitados, parecendo quebrados uma pele lisa, manchada por tanto vermelho de suas lágrimas, mais profundas, mais dolorosas, mais íntimas. Um cabelo tão caído e tão curto...
E seus olhos.
Ah, seus olhos.
Eles estavam tão mortos, mortos, mortos.
Essa imagem rodopiava através de meus olhos, em volta de cores fortes justamente para chamar a atenção. Umas vozes dizendo “que horror” “que doente” “Meu Deus!” e algo dentro e mim alertava que eram direcionadas a mim, que seus olhares piedosos e espantados eram direcionados a mim, aquela criatura caída no chão do quarto, rasgada dos pés a cabeça, feita de pele, osso e tristeza.
Mo...
Foi tão forte quanto uma batida de carro, um relâmpago na tempestade, uma queda de avião. Foi tão doloroso o estômago doendo, a mente berrando, o coração se apertando, os ossos se rangendo e a pele se rasgando, mas tão silêncioso quanto o voo de uma borboleta fora desse corpo quebrado que eu pertencia.
M...
E era isso, uma dor tão forte e...

E eu finalmente estava morta.

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