Eu
estava morrendo.
Eu
estou morrendo
Podia sentir meu estômago se
revirar dentro de mim, apertando cada vez mais, encolhendo-se
dolorosamente. Meu coração batia de forma tão dolorosa que eu
queria arrancá-lo do peito com minhas próprias mãos, era tão
difícil respirar, tão difícil abrir os olhos e me mexer. Era como
estar naquelas malditas paralisias do sono, queria tanto em mover,
mas não havia força.
Estava tão fraca... Está tudo
girando tão rápido e, a cada volta, um ponto preto cega minha
visão. Queria vomitar a água que tenho consumido por dias, queria
sentir mais leve, mas não havia como.
Estou morrendo,
Morrendo...
Morren..
Eu
só precisava esticar o braço, apertar duas ou três teclas no
celular e sussurrar um “Me ajude, estou morrendo, estou
morrendo, me ajude” mas minha
alma já havia se desprendido e meu corpo, não havia como erguer um
dedo, ele continuava encostado na poça de sangue e no chão frio, e
eu podia sentir que todo o esforço que fiz foi para mover dedos
fantasmas.
Morre...
Eu podia gritar por ajuda, mas não
havia fôlego para isso, não havia como suspirar, não havia como
soltar a respiração e puxá-la de volta. E não havia ninguém
perto, não havia ninguém para me ouvir e me socorrer, mesmo que eu
soltasse um simples arfar.
Morr...
Estava doendo tanto, cada osso meu,
dos minúsculos aos maiores, se contorciam. Minha pele pareci tão
fina que até mesmo o ar a cortava, e eu estava com tanto frio que
cada tremor involuntário só piorava. Queria tanto me arrastar e
puxar meu edredom quente, rosa e com cheiro de infância, me cobrir
inteira até me esquentar... Mas não conseguia me mover, mal
conseguia tremer mais. Estava perdendo os sentidos, perdendo a
esperança. Perdendo a vida.
Mor...
Mal conseguia me concentrar, mas uma
imagem permanecia em minha mente, um espelho pequeno apoiado na cama,
e nele refletia uma garota quebrada, muito, muito, muito sangue pelo
chão, pelo corpo, pelo pano. Um sutiã rosa, uma calcinha branca
velha e de coração, ossos desajeitados, parecendo quebrados uma
pele lisa, manchada por tanto vermelho de suas lágrimas, mais
profundas, mais dolorosas, mais íntimas. Um cabelo tão caído e tão
curto...
E
seus olhos.
Ah,
seus olhos.
Eles estavam tão mortos,
mortos, mortos.
Essa imagem rodopiava através de
meus olhos, em volta de cores fortes justamente para chamar a
atenção. Umas vozes dizendo “que horror” “que doente” “Meu
Deus!” e algo dentro e mim alertava que eram direcionadas a mim,
que seus olhares piedosos e espantados eram direcionados a mim,
aquela criatura caída no chão do quarto, rasgada dos pés a cabeça,
feita de pele, osso e tristeza.
Mo...
Foi tão forte quanto uma batida de
carro, um relâmpago na tempestade, uma queda de avião. Foi tão
doloroso o estômago doendo, a mente berrando, o coração se
apertando, os ossos se rangendo e a pele se rasgando, mas tão
silêncioso quanto o voo de uma borboleta fora desse corpo quebrado
que eu pertencia.
M...
E
era isso, uma dor tão forte e...
E
eu finalmente estava morta.



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